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O que é anime e por que o fenômeno japonês veio parar aqui na América Latina

O que é anime e por que o fenômeno japonês veio parar aqui na América Latina?

Sumário

A pergunta sobre o que é anime um dia já foi pertinente. Tinha muito daquela história de colocarem na caixinha do desenho, porque até meados dos anos 1980, passava algo discreto dentro da programação do desenho. Quiçá, existiam aqueles que chamavam de desenho japonês. Aí esclarecer o que era o mangá e o que era o anime de fato se tornava relevante, dadas suas devidas características e proporções.

O gênero famoso até então era o tokusatsu, como Jaspion, Ultraman e Godzilla.

Fato é que no final dessa mesma década de 1980 e no começo dos anos 1990, por uma questão das emissoras latinoamericanas não terem muita banca para segurar 24 horas de programação com conteúdo caro de produção, elas começaram a investir nos direitos dessas histórias que vinham lá do outro lado do mundo.

No Brasil, a Rede Manchete, investiu em clássicos como Jiraya, Cavaleiros do Zodiaco, Saylor Moon e Supercampeões. Um ponto importante também é que as exibições dos animes no Brasil sempre foram antes do meio dia e depois das 18 horas, para baterem com horários escolares.

Aí a relação explode. Vira um sucesso estrondoso. Quem não sabe quem é o Goku?

Animes e suas narrativas rocambolescas tais quais as novelas

Anime nunca esteve na mesma caixinha do desenho. A estrutura da narrativa é diferente. Nos desenhos da Hanna-Barbera, por exemplo, ou dos Looneys, você tinha uma coisa mais episódica, mais cíclica. Eram crônicas, contos, fábulas sobre uma determinada situação.

No anime você já tem mais um aspecto de novela, daquela coisa rocambolesca das sagas, em que exige o envolvimento. Você precisa esperar pelo próximo capítulo para ver o desenrolar do que aconteceu no último. Tem o acompanhamento. Não é acompanhar só por gostar, é acompanhar a narrativa. Onde o protagonista irá chegar? Será que ele irá triunfar?

E o Brasil é o país da novela. Uma estrutura mais similar, mesmo que reproduzida do outro lado do mundo, em contexto absolutamente distinto, caiu nas graças do público. As crianças que nasceram nos anos 1980 e nos anos 1990 têm vivo na memória cada trama dessas grandes narrativas.

Quem não conhece Goku? E para quem acompanhou sua jornada, quem não se lembra desse momento? Anime é sobre grandes momentos, sobre apogeus, sobre heroísmo, sobre reviravoltas, sobre o fim do mundo e o renascimento dele.

Anime é apenas uma mídia da cultura otaku

E a verdade é que o anime é apenas uma mídia de toda uma cultura otaku. Anime é a mídia audiovisual, assim como o mangá é o produto de leitura. A cultura otaku bebe na fonte de todas essas obras e ferve um movimento que há décadas mostra uma lealdade e um compromisso que, se fosse absorvido por outras esferas, poderia levar a humanidade para frente.

É muito massa ser otaku. Hoje é estar inserido meio que na cultura pop, nas filas da Comic Con. Mas o otaku está na cena desde AnimeCon e AnimeFriends, eventos de cosplay, com mupy, com cospobre, com a galera indo para se divertir e tirar fotos com câmera Sony prateada. Dos grupos que se formavam no Orkut para chegar em bando.

O cosplay é um ornamento. Não é uma fantasia de carnaval ou halloween. Na essência, o cosplay é um ornamento. Tem que ter respeito e costas largas para montar uma peça e desfilar com ela ao longo de um dia inteiro, encarnando no personagem.

Porque não basta se vestir. Ali, naquele ambiente, você é o personagem. Quanto melhor o cosplay, mais as pessoas te abordam e mais elas te enxergam pelo personagem, não pela pessoa por detrás. É o momento de encantamento – e conseguir ver o seu protagonista ou sua protagonista preferidos dos games ou dos animes ali, montados, é incrível.

É um respeito por quem monta e um respeito de quem aborda. A cultura otaku é de muita comunhão, de muita comunidade. Hoje há um investimento considerável em infraestrutura para que cosplayers tenham lugar onde se arrumar e se produzir com conforto e iluminação.

Nos anos 2000, quando os principais eventos de anime começaram de fato a ganhar peso, isso era feito em vestiários, sem espelhos. Era um ajudando o outro mesmo, ajeitando coroa, ombreira, fazendo a maquiagem. Isso que é talvez o mais legal de toda a jogada. Sempre foi uma galera do bem, querendo tirar uma onda e fazer um movimento acontecer.

Aconteceu.

Como os valores de cada obra são respeitados e absorvidos 

Se você abrir hoje a Netflix, vai demorar um tempo até encontrar algo que você queira ver, mas vai achar. Você pode achar algo que te interesse pela narrativa, ou algo totalmente fora da curva. Os animes sempre foram assim: um grande catálogo, que navegando você encontra narrativas interessantes e aquelas que fazem sua cabeça explodir.

Existe a base, onde estão grande parte dos animes. E existem os atemporais. É como no cinema. Não tem aquela massiva leva de filmes que estão aí e nunca clicamos? E não tem aquelas recomendações certeiras? Existem animes que souberam explorar recursos metalinguísticos de seu formato, para contar uma história ainda maior.

É quando a coisa fica maluca. É quando o “desenho japonês” entrega obras como Neon Genesis Evangelion, inclusive, hoje, disponível no catálogo da Netflix. Quando luta de robô gigante vira palco para discussões sobre paternidade, adolescência e emancipação.

No começo de tudo exista uma antiga raça alienígena que seriam o equivalente aos deuses, chamada de Primeira Raça Ancestral. Essa raça criou duas Sementes, representadas por Adão, a Semente da Vida; e Lilith, a Semente do Conhecimento.

Para semear a vida pelo universo essa raça espalhou “ovos” de Adão e Lilith por diversos planetas, sendo que aqueles que recebiam Adão desenvolviam os Anjos e os que tinham Lilith geravam a vida como conhecemos, com humanos, animais e plantas. Na teoria nenhum planeta poderia receber duas sementes, já que se fossem juntas elas formariam um ser tão poderoso quanto o Deus que os criou.

Inicialmente a Terra recebeu Adão, mas por razões desconhecidas, antes que os Anjos começassem a se desenvolver, a semente de Lilith também caiu aqui de uma forma não planejada. Como os dois não podiam coexistir em um mesmo planeta, Adão foi selado com a Lança de Longinus, evento esse que é conhecido como Primeiro Impacto.

Lilith cria a vida, são milhões de anos de evolução e chegamos no ano de 2000, em que uma expedição ao Polo Sul encontra Adão. A equipe de pesquisa, em um experimento, coloca o corpo de um humano em contato com o corpo de Adão, mas pela descendência de Lilith, isso gera uma gigantesca explosão, que acaba com quase toda a vida na Terra. Esse foi o Segundo Impacto, que também acabou transformando Adão em um Embrião.

A partir de amostras desse embrião, Gendo Ikari, o homem por detrás da NERV, começou a fazer experimentos. No início do anime, vemos que os Anjos estão atacando o GeoFront em Tóquio 3, pois é lá que está escondido o embrião. Caso os Anjos tivessem sucesso nesse plano, toda a humanidade teria sido destruída e eles finalmente poderiam reinar no planeta.

Gendo constrói os Evangelions, a partir do embrião, para combater os Anjos. Os EVA 00 e 02 eram basicamente clones de Adão, enquanto o EVA 01 era um clone de Lilith.

O final converge nos episódios 25 e 26 do anime, que acontecem basicamente de forma simultânea com o filme The End of Evangelion. A diferença é que os dois episódios finais abordam um lado mais subjetivo, já que exploram a psique de Asuka, Misato, Rei e principalmente de Shinji, enquanto o longa é de forma mais literal a continuação dos eventos da animação.

Continuação essa em que Rei, instrumento de Gendo e um clone de Lilith, se transforma em uma “divindade” e junto com o EVA 01 de Shiji começa o processo de Instrumentalidade Humana. O Terceiro Impacto. É quando temos a mescla do filme com o final anime, mostrando Shinji reconhecendo a sua própria individualidade e descobrindo o seu verdadeiro eu perante tudo que ele passou e todos que conheceu.

É a narrativa inteira se sentindo sozinho. E o universo está em suas mãos.

Assim, ele rejeita o Terceiro Impacto escolhendo manter a sua individualidade. Temos Shinji em um mar de LCL, vivo como um indivíduo. No horizonte, um mar de pessoas imersas em um líquido de LCL. São indíviduos, para recuperar sua forma humana, basta fazerem tal como indivíduos.

América Latina cresceu vendo seus personagens preferidos em grandes momentos 

A narrativa rocambolesca, a coisa da novela, sempre te agarra na promessa de que algo grande vai acontecer. Quando você se apega ao personagem ainda, são dos momentos de sair correndo pela casa vibrando. E a juventude das décadas de 1980 e 1990 na América Latina se acostumou a ter protagonistas vivendo grandes momentos.

Em Mobile Suit Gundam Seed, a sociedade é dividida entre os seres humanos da Terra e os super-humanos geneticamente modificados, conhecidos como “Coordinators”. O conflito primário da história deriva do ódio dos humanos diante das habilidades dos Coordinators, levando a uma onda de crimes contra eles.

A violência e fricção entre os dois lados resulta na emigração de quase todos os Coordinators para o espaço, em uma vida idílica em colônias espaciais orbitais gigantes, chamadas PLANTS. A guerra eventualmente explode entre a Terra e as PLANTS.

As Forças da Terra não são uma aliança unificada, e existem lutas internas e desconfiança entre os vários estados-nação. A Terra é dividida entre duas facções principais, formada pela Eurasia e a Federação Atlântica – e existe ainda um grupo de supremacistas humano, conhecido como Blue Cosmos, com um slogan que diz: “Para a preservação de nosso mundo azul e puro”, que age com extremismo contra os Coordinators. A Terra ainda possui a União Orb, uma nação politicamente neutra e isolacionista localizada em pequenas ilhas do Oceano Pacífico.

As PLANTS possuem um grande poder tecnológico, desenvolvendo muitas novas tecnologias que lhes dão poder igual à Terra, apesar da sua população muito pequena. É a invenção dos Mobiles Suits que dão aos militares a vantagem no início da guerra.

O anime então nos apresenta um mundo de perspectivas, que dialogam diretamente com xenofobismo e alteridade. E quando chegam os grandes momentos, você está engajado e preparado para vivê-los. Ver Mu La Flaga proteger a Archangel, na batalha final contra o Blue Cosmos, é de arrepiar a espinha.

No final, é sempre sobre amizade

A cultura otaku é tudo aquilo que discorri, sobre amizade, sobre comunidade, exatamente porque são esses os valores que são passados nas obras. Dá uma olhada nesse trecho de One Piece:

Os animes, para além do fenômeno generalizado na América Latina, principalmente por questões de direitos de transmissão mais baratos e um horário certeiro para atingir uma geração – que não sabia, mas já anseava, por narrativas mais cativantes -, ensinavam valores essenciais para a formação de cada um que os assistia.

Você aprendia o valor de lealdade e amizade. De que a gente nunca chega a lugar nenhum sozinho. Nem mesmo os grandes heróis.