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Porque Messi e Barcelona, depois de 20 anos, ropem, mesmo com renovação dada como certa

Porque Messi e Barcelona, depois de 20 anos, ropem, mesmo com maior ídolo querendo ficar

Sumário

O cenário há um ano era o seguinte: Messi e Barcelona acabavam de tomar uma acachapante goleada de 8 a 2 do Bayern de Munique na Champions League 2019-20. A falta de projeto esportivo do clube, os recentes e sequenciais vexames no maior torneio do mundo e uma situação de gestão estratégica, sobretudo financeira, que ruíram com a pandemia, afastaram de Messi o sentimento que sempre lhe foi característico na Catalunha: o de casa.

Expressou abertamente sua vontade de sair. Não se sentia mais estimulado.

Messi tinha uma cláusula em seu privilegiado contrato, garantia que caso o jogador decidisse sair do Barcelona, era precisa uma notificação oficial em um período prévio ao término da temporada. Com a reconfiguração do calendário em decorrência da paralisação do futebol em 2020, Messi enviou essa notificação, mas de acordo com as datas desse novo calendário.

Tomou uma canetada. Uma cláusula que teve sua lógica subvertida e impediu sua saída naquele momento. Segundo o Barcelona, esse período prévio ainda deveria ser respeitado de acordo com o calendário convencional, sem a excepcionalidade da ocasião sanitária. 

Messi enviou o “burofax” em agosto do ano passado, exatamente há um ano, antes do fim da “temporada do coronavírus”, mas segundo o clube catalão, ele deveria ter enviado antes de junho, período predecessor ao que terminaria caso nada tivesse acontecido. Canetada.

O que aconteceu daquele agosto de 2020 para cá? Messi reinterpretou sua participação no clube, ressignificou o sentimento de casa, jogou muita bola e, surpreendentemente, mesmo tendo ganho apenas uma modesta Copa do Rei, decidiu ficar. O fim perfeito para uma história escrita por linhas tortas, de altos e baixos, mas que é um relacionamento de longa data, que resiste. 

Mas acredite: a incompetência do Barça em organizar suas finanças de modo minimamente responsável obrigou o maior jogador da história do clube a ir embora. E isso vai doer para sempre no Barcelonismo.

Olha o poder que gestão estratégica tem na construção da figura de uma marca, de um clube. Messi já havia mudado de ideia. Lidou bem com a responsabilidade de ser a referência de um time com vários jovens. Briga pela Bola de Ouro. Estava no quintal de sua casa.

Só que a forma como o Barcelona foi se esfarelando como instituição, simplesmente liberou Messi. Segundo o atual presidente do clube, Joan Laporta, Messi aceitou um acordo, que chegou a ter um aperto de mãos selado, o qual o argentino aceitou ganhar 60% menos do que seu último contrato, jogando por duas temporadas e recebendo o montante total ao longo de cinco anos.

Cara. A pesquisa “Brand Finance Football 2021” mostrou que o déficit econômico que o Barça pode ter no valor de sua marca sem a presença do Messi está na casa dos € 137 milhões (R$ 848 milhões, pelas cotações atuais). Isso envolve produtos, bilheteria, museu (que praticamente rendia o valor do salário de Messi e teve suas portas fechadas durante a pandemia), resultados em campo, premiações, atração de marketing, jogadores de classe mundial.

Mas nem que Messi jogasse de graça as contas se encaixariam nas finanças de um clube que terá quase € 500 milhões de prejuízo no balanço da última temporada. Um clube que fez péssimos negócios ao lidar com sua política de salários, baseada em gratidão. 

O resultado é que o Fair Play Financeiro adotado pela La Liga, a federação responsável pelo campeonato espanhol, que impediu Messi de ficar. E mais do que isso – a escolha do Barcelona por autonomia num futuro a longo prazo, fez com que o clube catalão abdicasse de seu maior ídolo.

A trajetória de Messi até o rompimento com o Barcelona

A Espanha havia acabado de ficar desnorteada com os galáticos do Real Madrid. No meio do espetáculo midiático gerado em torno de contratações como Ronaldo, Zidane, Figo e Beckham, um brasileiro foi responsável por desviar um curso na linha temporal do futebol espanhol, mostrando talvez a magia mais pura do ofício e fazendo, pela primeira vez, o Santiago Bernabéu aplaudir de pé uma apresentação de seu maior rival.

Ronaldinho Gaúcho transforma o Barcelona. Traz sua primeira orelhuda. Engrandece o barcelonismo e se torna o primeiro produto de La Masía. É o primeiro fenômeno culé de puro encantamento, em que a torcida transcendia as cores da Catalunha. Ronaldinho Gaúcho foi um furacão, mas encantou o mundo por 2 anos. 

O Barcelona precisava de um novo produto que segurasse a grandeza. Sempre lhe foi característica, mas agora conversava em outra prateleira. Messi aparece justamente na transição da era do brasileiro, que inclusive, lhe dá a assistência para o seu primeiro gol.

O resto é história. O símbolo de um futebol ofensivo, de uma ideologia do esporte. O romantismo daquele que vestia apenas uma camisa.  

Messi e Barcelona se entendem pela primeira vez efetivamente através da figura de Pep Guardiola. Regendo um grupo apoiado por outros gênios como Xavi e Iniesta, criou um esquadrão imbatível. 

Bicampeão do Mundial de Clubes da FIFA (2009 e 2011), Bicampeão da Liga dos Campeões da UEFA (2008-2009 e 2010-2011), Bicampeão da Supercopa da UEFA (2009 e 2011), Tricampeão Espanhol (2008-2009, 2009-2010 e 2010-2011), Bicampeão da Copa do Rei (2008-2009 e 2011-2012), Tricampeão da Supercopa da Espanha (2009, 2010 e 2011) e um dos maiores times da história.

Nisso, Messi ia colecionando Bolas de Ouro. O ciclo Guardiola passou e Messi continuava ganhando prêmio individual atrás de prêmio individual. Até formar outra equipe registrada nos arautos do esporte, essa, ao lado do uruguaio Luis Suárez e do brasileiro Neymar, considerado por grande parcela da imprensa esportiva, como tridente, a maior formação ofensiva da história do futebol. Na temporada 2014-15, em que levantaram mais uma Orelhuda, marcaram 122 gols em 60 jogos: Messi (58), Neymar (39) e Suárez (25). 

Nos últimos anos, o Barça foi um time que nunca engrenou. Que aqui no Brasil a gente colocaria como a clássica “Messidependência”. Jogadores envelhecidos, sem a mesma intensidade – e que não jogavam mais ao serviço do craque. Dependia de lampejos, que com Messi nunca é lampejo, é garantia de lance perigoso de jogo nos pés do argentino, mas que nem sempre é suficiente para garantir uma vitória.

O Barcelona não soube aproveitar Messi nos últimos anos. Uma incompetência inacreditável e infantil de seus dirigentes, que dilapidaram o maior patrimônio do clube mais rico do mundo. Hoje afundado em crise, sem poder inscrever esse patrimônio nem de graça. E sem coragem de demitir meio time, manter o cara e subir a base. Começar do zero. Não chegou lá embaixo? Recomeça o planejamento estratégico. 

Foi seis vezes eleito o melhor do mundo e colecionou os maiores títulos possíveis por clubes. Sua imagem está fortalecida pela conquista da Copa América, primeiro título seu pela seleção argentina, e pela maneira como ficou evidente que sua saída do Barcelona não foi por qualquer intransigência sua. 

Para o Barcelona, fica essa lacuna. O Real Madrid ainda preencheu a de Cristiano Ronaldo? Dói essa ferida.

O que realmente ocasionou a saída de Messi do Barcelona?

Em sua nota oficial sobre a saída de Lionel Messi, o Barcelona diz que “os obstáculos econômicos e estruturais (regra de La Liga espanhola) impediram a formalização do contrato mesmo com a clara intenção das duas partes na renovação”. Claramente se exime da responsabilidade, pega a batata quente e joga para a La Liga. 

A administração do ex-dirigente Josep Maria Bartomeu é digna das mais desastrosas do futebol brasileiro. Amadora. O Barcelona se tornou, justamente pelo Messi, um clube de nível mundial. As pessoas, literalmente, ao redor do mundo, assistem aos jogos do Barça para ver o Messi jogar. Mais do que isso. As pessoas começaram a se identificar com o barcelonismo e transcender isso para defender as cores blaugranas.

Mas sério. O que o seu Bartomeu fez com o Barcelona deveria ser usado como ferramenta de pesquisa acadêmica como análise de erros crassos de gestão estratégica, financeira, de processos, de pessoas, de marketing, de marca e de todos os aspectos que compõem uma organização. O que não fazer para pegar o seu maior patrimônio e jogar ele no lixo, de graça.

Messi só ficou no ano passado por conta da renúncia do dirigente, motivada pelo escândalo de corrupção e de difamação envolvendo seu mandato, mas estava mais do que óbvia a incapacidade do presidente na gestão do clube.

O clube operava no limite do que poderia pagar em salários, com uma folha que chegou a superar os € 500 milhões em 2018/19, mais de € 100 milhões acima de qualquer outro clube europeu. E a pandemia agravou ainda mais o cenário, como já foi dito.

Em janeiro de 2021, o Barcelona publicou seu balanço referente à temporada 2019/20. Dívidas totais na casa de €1 bilhão, enquanto os débitos de curto prazo chegavam aos € 730 milhões. No fim das contas, o coronavírus causou um impacto inicial de € 200 milhões nos cofres do Barcelona, representando 20% a menos da arrecadação prevista anteriormente. 

O resultado disso é expresso na gestão de Joan Laporta, o homem que geriu o Barcelona que lançou Messi e o liderou por seu momento mais vitorioso, que tentou desarmar a bomba deixada por seu antecessor.

O Fair Play Financeiro de La Liga não olha as contas passadas, mas sim estipula um teto de gastos futuros. Com a arrecadação em retração e as dívidas enormes, esse limite do Barcelona se reduziu bastante para 2020/21. O montante precisaria se reduzir em cerca de € 200 milhões, segundo estimativas, para evitar penalidades e até mesmo para viabilizar a inscrição de jogadores.

O rompimento Messi e Barcelona é uma vitória de bastidores da Superliga Europeia

Para além da incompetência de chegar no momento da renovação de seus contratos e ter a famosa “planilha do excel” organizada e coerente, para entender o fluxo de caixa, entradas e saídas, orçamento destinado para pagamento de salários, teto definido pela federação da liga. Coisa básica de quem mexe com administração de um clube. Não só de um clube. 

De um negócio. Transfira isso para a realidade de um negócio. Chegar justamente na hora de renovar o contrato de todo seu contingente e ter um plano de ação para redução de custos e novas contratações. O fluxo financeiro precisa estar na ponta do lápis. Ou melhor, expressão datada, precisa estar dentro de um sistema de dados confiável, que te garanta melhor assertividade na hora de projeção e execução. Aí você tem o enquadramento da sua empresa e o quanto você tem que pagar de taxas e impostos.

É operação básica. Gestão estratégica básica. Mas parece que existe um tempero nessa história que vai além da incompetência de chegar nesse momento e ter bala para bancar. 

A saída de Messi ocorre na mesma semana em que La Liga alinha um acordo com um fundo de investimentos que injetaria bilhões na competição, para modernizá-la, ao passo que também tiraria o poder e a autonomia dos grandes clubes para trafegar por diferentes caminhos, já que o compromisso do acordo seria na casa dos 50 anos.

O dinheiro injetado pela CVC poderia ampliar o teto salarial do Barcelona e, em consequência, também acomodaria a renovação de Messi sem romper os limites estipulados pela competição. Contudo, o Barça não parece disposto em dispensar seu projeto individual para garantir a permanência de seu maior ídolo.

Onde o mundo estará em 50 anos? Será que La Liga ainda será atrativa? Os clubes espanhóis, para além de todos os envolvidos na questão, foram os que encabeçaram o fracassado projeto da Superliga, que justamente procurava autonomia, enfrentamento com os maiores clubes do mundo e controle financeiro mais efetivo nos ganhos da competição.

O projeto fracassou, mas parece não estar fora dos planos desses clubes. Horas depois de anunciar o adeus de Messi, o Barcelona publicou um comunicado se opondo ao acordo de La Liga com o fundo de investimento CVC. O clube põe justamente em xeque a longa duração do vínculo, que comprometeria direitos de transmissão durante um contrato irreal para a velocidade que se movimenta nosso mundo.

Com a saída de Messi, assim como a de Cristiano Ronaldo, Barcelona e Real Madrid apostam que suas camisas são maiores que os craques responsáveis por elevarem o peso delas. O Barcelona se enfraquece esportivamente, institucionalmente e também comercialmente, pensando naquilo que a imagem do camisa 10 representava. Mas faz isso sob a perspectiva de ainda poder contar com uma liga independente e mais forte dentro de algum tempo, sem mais o compromisso longo que o CVC exigia.

Com a vontade de Messi e a vontade do Barcelona de renovarem, o que faltou mesmo foi planejamento estratégico e gestão de processos

O que é de fato planejamento estratégico? Cara, é simples o conceito: é analisar um contexto, colocar dentro de um processo sistemático, para encontrar os caminhos para atingir um objetivo para o seu negócio. É estratégia. Você larga aquele discurso do “eu acho que”. Não, você tem “base que”. 

É, no coração e na ideia principal, gerenciar processos, as engrenagens que fazem o motor da sua empresa funcionar. São esses que garantem um certo nível de padrão na repetição. Cartilha de qualidade e possibilidade de escalar.

É também uma questão que está ligada aos valores. Você inserir essas engrenagens e diretrizes dentro de uma ideologia de trabalho, que todos comprem a ideia. Que todos estejam alinhados com o direcionamento de negócio e que remem o barco na mesma direção, independente das intempéries do tempo.

No caso do Barcelona, é um clube que sempre cultivou e foi modelo nisso. Para além, um clube que geria muito bem suas pessoas, que criava um ambiente envolvente e que florescia a excelência. 

Mas a jornada por montar um planejamento estratégico passa também por gerir seus recursos, suas finanças. Algo que o Barcelona foi desastroso e é digno de estudo por chegar ao ponto de ter seu maior ídolo querendo ficar – e nem de graça você conseguir mantê-lo.

O clube que só possuía uma Champions se despediu de Messi com mais quatro. Dez dos 26 títulos em La Liga tiveram o camisa 10 em campo. Artilheiro, líder em assistências. Sem contar o lado lúdico entregue por quase 15 anos. Messi com a camisa do Barcelona está nos palacetes mais nobres do futebol. 

Ronaldinho conseguiu isso pouco antes, talvez o mais místico e esotérico do esporte, mas não com a mesma constância de Messi. Manteve o barcelonismo em uma vitrine sempre especial, que mudou com o tempo, como em qualquer processo de amadurecimento, mas que sempre manteve a fé para continuar seguindo no gigantismo dos 1,70 metros do maior camisa 10 da Catalunha.

O que resta é a imagem de sua despedida. A mais humana do ET que brincou de jogar futebol.