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Como surgiram as Paralimpíadas

Como surgiram as Paralimpíadas: além da deficiência, quando o mundo para pra ver esporte de alto nível

Sumário

No documentário “Pódio para Todos”, disponível na Netflix, a filha do médico Ludwig Guttmann, considerado o precursor das Paralimpíadas, tem um relato potente ao descrever a vitória de Jonnie Peacock sobre a lenda Oscar Pistorius, nos 100 metros rasos, em Londres, 2012. Havia um estádio lotado ali. A personagem do documentário então percebe o impacto do trabalho que seu pai começara. Ninguém estava ali pela deficiência; era pelo esporte, tanto quanto as Olimpíadas. Todos vibrantes por um grande evento esportivo. Inclusão. A nível mundial. Mas afinal, como surgiram as Paralimpíadas?  

Como esse fenômeno, na mesma Londres 2012, agradeceu as Olimpíadas pelo “aquecimento” ao que viria com as Paralimpíadas? Como algo toma essa proporção – e como nosso país é uma potência tão grande e tradicional paralímpica se comparada ao comitê olímpico? Quer ver? Esse é o quadro de medalhas final do Brasil em Tokyo 2020, recorde de todas as participações em Jogos Olímpicos:

E esse daqui é o quadro de medalhas final do Brasil nas Paralimpíadas Tokyo 2020, igualando também ao recorde de posições conquistado em Londres 2012 e o recorde de medalhas alcançado no Rio 2016:

As Paralimpíadas tem um poder de transformação sem precedentes. Se acreditar em jornada de herói, daquelas que superam seus limites para alcançar grandes façanhas, aqui tem uma penca delas. Da vida real. Não é ficção. Não tem capa, não tem glamour, tem vida real e tem superação. Mas é igualzinho ao mito. Só que real. Com isso, transforma.

De 4 em 4 anos, ao ver essas pessoas fazendo coisas que você julgava ser impossível – e não são, requer, como dizem, apenas prática -, você tem alteridade pelo contexto e aprende sobre lugar de fala, sobre diversidade, sobre inclusão. Isso para quem não está relacionado de alguma forma com a deficiência. Para quem está, o mundo floresce. Por que essa não pode ser uma possibilidade?

As pessoas precisam de espelhos. Não tem nada mais significativo do que um evento como esse para mostrar globalmente uma missão tão nobre: incluir humanamente, através do esporte e seus valores.

Reabilitação de pacientes da guerra e como surgiram as Paralimpíadas

Em Stoke Mandeville, Reino Unido, existia um hospital dedicado a soldados com lesões medulares. O ano era 1944 e quem voltava da Segunda Guerra desse jeito acabava ficando invalidado.

A instituição ficou conhecida como Spinal Injuries Centre e foi uma das precursoras a fazer estudos para a reabilitação desse tipo de pacientes. Era conduzida pelo médico alemão, exilado de sua terra por conta das origens judia, Ludwig Guttmann, que decidiu implantar práticas esportivas como ferramenta de recreação. 

A partir de 1948, com os estímulos e a ampla adoção, ele criou a 1ª edição do Stoke Mandeville Games. Sucesso na lata. A competição tornou-se anual e, a partir da década de 1950, passou a receber atletas estrangeiros. O marco, entretanto, e que converge com a história dos Jogos Olímpicos, acontece em 1960, quando os jogos de Stoke Mandeville vão para Roma, cidade sede das Olimpíadas.

O evento contou com 400 atletas, de 23 países, e é considerado oficialmente o primeiro Jogos Paralímpicos da história. 

Na edição seguinte, em 1964, a competição também foi realizada na cidade sede das Olimpíadas. Entre 1968 e 1984, houve uma separação, onde os Jogos Paralímpicos foram realizados em cidades diferentes das Olimpíadas, porque os comitês dessas cidades não demonstraram interesse em organizar o evento paralímpico.

Foi a partir de Seul, em 1988, que os Jogos Paralímpicos ganharam maior visibilidade. Na capital coreana, os atletas paralímpicos foram permitidos a usar a mesma estrutura dos atletas olímpicos, e isso contribuiu para colocá-los no mesmo pé de igualdade. A mudança de patamar foi tão expressiva que, já em 1989, surgiu o Comitê Paralímpico Internacional.

Esse mesmo comitê anunciou, em 2017, que os Jogos Paralímpicos Rio 2016 foram os mais vistos da história, com uma audiência acumulada de mais de 4,1 bilhões de pessoas.

De acordo com números da empresa Nielsen Sports, publicados para marcar os seis meses do término dos Jogos Paralímpicos, o Rio 2016 contou com um crescimento de 7% de audiência em relação a Londres 2012, quando cerca de 3,8 bilhões de pessoas assistiram à Paralimpíada. 

Os dados das Olimpíadas de Tokyo ainda não foram divulgados. É explosivo.

Importância da inclusão e as Paralimpíadas como espelho

Inclusão não é sobre ver da vitrine. É sobre obter um assento igual à mesa. Inclusão é sobre pertencimento. Lance de cultura mesmo, lugar onde a diversidade encontra a inclusão. Aquela coisa que não é panfletária, não é da boca para fora, não fica só nas palavras. É algo natural, algo já compreendido e seguido em diante. 

De um lado, nas Olimpíadas, vimos Rayssa Leal e a galera do skate nos ensinando que o momento é único e que você deve aproveitar cada segundo dele. Alana Smith, representante dos Estados Unidos, e últime colocade nas classificatórias, esbanjava felicidade por estar lá. Lanterna, elevou à enésima potência o mood e ética do skate de o que vale é estar lá. Mais se divertindo do que competindo. Pessoa não binária, Alana não se importa com limitações e rótulos.

Skate é isso! E mostra como alto rendimento pode vir sem tanta pressão psicológica, bola muito levantada por Simone Biles, provavelmente a maior ginasta da história – e que desistiu de suas finais nessas Olimpíadas por questões de saúde mental. Nem tudo precisa ser perfeito. Pode ser do seu jeito. Espelhos.

Do outro lado, nas Paralimpíadas, a carreira vitoriosa de Daniel Dias. Daniel se despede das águas dos Jogos com 27 medalhas, sendo 14 ouros, sete pratas e seis bronzes, em 4 edições disputadas. Nenhum outro atleta brasileiro chegou sequer perto disso. O nadador recebeu o Prêmio Laureus, o “Oscar do Esporte” e é detentor do recorde mundial nas provas de 100m e 200m nado peito, 100m costas e 200m borboleta. Nasceu com má-formação de seus membros superiores e inferiores.

Espelho puro.

Por que o Brasil é potência nas Paralimpíadas

São mais de 300 pódios em 12 participações e mais de 100 medalhas de ouro durante mais de 40 anos de Jogos Paralímpicos. Além da expressiva quantidade de medalhas de ouro conquistadas na história, a melhora gradual da colocação do Brasil no quadro geral foi fundamental para colocar o país de vez entre as maiores potências do esporte paralímpico.

Na edição de Atlanta, em 1996, o Brasil terminou a competição em 37º no geral, com 21 medalhas. Em Sydney 2000, já pegou o 24º lugar, com 22 medalhas. Em Atenas 2004, mais 10 posições, em 14º, com 33 medalhas. Em Pequim 2008, 9º lugar, com 47 medalhas; 7º lugar em Londres 2012, com 43 medalhas; 8º no Rio 2016, com 72 medalhas; e, por fim, o 7º lugar em Tokyo 2020, também com 72 medalhas. 

A decolada do Brasil rumo ao topo no esporte paralímpico se inicia, em 1995, justamente com a criação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), consequência da fundação do Comitê Paralímpico Internacional, em 1989.

A sagacidade para organizar uma representação unificada do esporte paralímpico brasileiro foi fundamental para que o esporte fosse amplamente divulgado no país. Mais do que isso, para que existisse sempre um sentimento de inclusão e pertencimento, com foco na preparação de atletas para rendimento em alto nível.

Mas uma andorinha só não faz verão. Em 2001, às vésperas dos Jogos de Sydney, é assinada a Lei Agnelo/Piva, um importante respaldo financeiro e de recursos para o esporte no país. A lei prevê que que 2,7% do total bruto de arrecadação das Loterias Caixa, descontadas as premiações, sejam destinados aos comitês olímpicos e paralímpicos brasileiros. 

De acordo com dados da própria Loteria Caixa, só no ano de 2020, a arrecadação bruta chegou a bagatela de R$ 17,1 bilhões, destinando por volta de R$ 460 milhões para os comitês dos jogos.

Não só: o CPB ainda conta com incentivo de iniciativas privadas e parcerias estratégicas para a construção de projetos de inclusão, captação e desenvolvimento de atletas pelo Brasil. Uma mistura que resulta em investimentos do governo federal, apoio de empresas em projetos e iniciativas fundamentais para transformar e ampliar a realidade do atleta paralímpico do país.

Além da deficiência, quando o mundo para pra ver esporte de alto nível

Não tem como não se emocionar ao ver o trecho mencionado pela filha do Doutor Ludwig. Estádio lotado, vibrante, torcendo para a cria da casa. Um britânico, em solo da rainha, quebrando o recorde de uma lenda do esporte paralímpico.

Vê o quão essa história tem tantos outros elementos para além da deficiência? As milhares de pessoas que estavam ali no estádio estavam vibrando para ele vencer, como uma nação, como nós vibramos por cada medalha do nosso país. Era puro êxtase esportivo. Alentar, empurrar, torcer, vibrar.

Pouco importa se ele tinha uma perna ou não. Essa é uma construção da pessoa, que ela tem resolvida. Ela está nos Jogos Paralímpicos – e você está assistindo de casa! Não tente resolver ou ter algum sentimento por ela. Torça e vibra, como você faria em qualquer evento esportivo, porque é tão empolgante quanto! É tão competitivo quanto!

Sem usar que é superação só por ver alguém sem perna, braço, cadeirante, cego ou com paralisia. Esse pessoal treina demais. Pessoas com deficiência sofrem de capacitismo, que é quando alguém diz, de forma explícita ou implícita, que são “exemplo de superação”, “se ele consegue, eu também consigo”, “eu não tenho nada e ainda reclamo”. Reduzir a condição do outro perante a sua.  Não é superação, é treino. Vai lá e treina o que eles treinam. A deficiência nada mais é do que uma característica. 

Temos que botar todos sentados à mesa. Nada de ninguém olhando pela vitrine.